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leio, por isso penso, logo existo.

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Seg | 26.08.19

"Madame Bovary", de Gustave Flaubert: uma reflexão

Mar Pereira

Madame Bovary foi originalmente publicado em 1856 e desde cedo causou polémica, colocando no banco dos réus o seu editor, o responsável pela gráfica que imprimiu o livro e, claro, o seu autor, Gustave Flaubert (1821-1880), sendo ele um dos mais importantes nomes da literatura francesa.

O seu livro mais conhecido é Madame Bovary, que, desde cedo, foi um autêntico best-seller. O clássico francês, depois acusado de ser um atentado aos valores morais e religiosos, tornou-se prioritário na lista de leitura dos franceses: o que teria afinal o livro de tão polémico assim para ser levado a tribunal?

Certo é que, como me disse uma professora de Português há uns anos, e tal como diz a Isabella, “se um livro foi alguma vez censurado ou alguém tentou impedir a sua publicação, então esse é um livro que vale a pena ser lido.”

A história de Madame Bovary começa com uma menina simples, Ema, que, ao longo do livro, se demonstra uma personagem sonhadora, ambiciosa e vil. Ema é casada com Charles, têm uma vida estável, com uma pequena filha, Berta. O problema é que essa estabilidade não satisfaz Ema, que procura um outro tipo de vida. Leitora ávida de romances melosos, Ema sonha ter uma vida como aquelas que encontra nos romances que lê. Procura uma vida ideal, a felicidade absoluta, não conseguindo distinguir aquilo que é possível de ser alcançado daquilo que é apenas utópico. Ema luta e busca por essa felicidade que tanto idealiza e, vendo que o marido não lhe oferece a vida que se acostumou a ler nos seus adorados romances, enverga pelo caminho do adultério.  Esta cegueira que os romances cor-de-rosa trouxeram a Ema valem-lhe várias comparações a um célebre velhote que, de tanto ler romances de cavalaria, enlouqueceu e decidiu lutar contra moinhos: Dom Quixote.

Ora, não é de espantar que este livro tenha causado polémica. Numa época em que as mulheres são vistas como seres submissos e subordinados, surgir uma personagem feminina com desejo sexual, com ambições e aspirações na vida, só poderia causar controvérsia. Daí que Ema Bovary seja considerada uma das mais importantes e brilhantes personagens da literatura alguma vez criadas e Madame Bovary seja citado em todas as listas de “100 livros a ler antes de morrer”. É importante também referir que, quanto à corrente literária, apesar de ser considero por muitos como o primeiro romance realista da História, o seu autor defendia avidamente que este era um livro da corrente romântica. Talvez o mais correto seja dizer que o livro atravessa ambas as correntes, muitas vezes através das personagens, mas são os traços do realismo que também lhe do força para permanecer nessas listagens de "livros a ler antes de morrer".

Se quiserem levar esta história para um caminho mais filosófico, não seremos todos nós a Ema Bovary? Aliás, aquando do julgamento, quando questionaram Flaubert sobre quem era Madame Bovary, julgando que se tratava de uma pessoa real e que a história retratada era verídica, o próprio respondeu “a Madame Bovary sou eu”. E não seremos todos nós, também? Será que não vivemos apenas no propósito de atingir uma plenitude, uma felicidade absoluta, e não nos apercebemos que tal não existe? Ema era iludida pelos romances cor-de-rosa que li, nós, hoje em dia, temos pessoas que nos vendem as suas vidas como perfeitas – estão sempre felizes, sempre a sorrir, sempre a viajar, sempre a dizer que está tudo bem – e nós acreditamos nisso, acreditamos que está sempre tudo bem, que aquelas pessoas nunca têm dias tristes ou dias sem magnificência. E dizemos “quem me dera ter aquela vida.”. Portanto, repito a questão: não seremos todos nós a Ema, não estaremos todos nós à busca da utopia?

 

Até breve! 😊

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