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literatura, cinema e afins

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Sab | 18.08.18

Literatura | Poesia, o barulho de chuva

Mar Pereira

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Quem me conhece bem sabe que sou apaixonada por poesia. Foi um gosto que me foi passado por uma antiga professora de Português do Ensino Básico e que, penso eu, permanecerá até ao fim dos meus dias.

Mas o que é que a poesia tem para me agradar tanto? Mel não é com certeza. Acho que, no princípio fundamental da questão, será a maneira única que a poesia nos dá de nos tornarmos pássaros leves e livres. Poesia é tudo o que vem da alma, é o mais puro exemplo da essência humana.

Ser poeta não é uma ambição minha. É a minha maneira de estar só".

- Fernando Pessoa

O Começo

No entanto, apesar desta minha pequena paixão pela poesia ter sido cravada bem recentemente, estou acompanhada por ela há já muito tempo. Um dos primeiros livros a habitar a minha estante, que, na altura,123.jpg estaria recheada de brinquedos, foi um livro de poesia. Intitulado Anjos de Pijama, escrito por Matilde Rosa Araújo e ilustrado por Maria Keil, foi-me oferecido quando tinha 5 anos.

Ainda habita a minha estante, num canto dedicado a livros que, por mais que os anos passem, serão sempre especiais à leitura que hoje sou.

Lembro-me de ter a minha irmã a ler-mo, muitas vezes, e, quando aprendi a ler, devorei-o durante muitas noites. É um livro muito ligado à natureza, com diversas ilustrações que me fizeram aprender muitos nomes de animais e ficar, durante muito tempo, entretida a ver os pormenores de cada desenho. Foi o primeiro contacto que tive com poesia, em toda a minha vida. Penso que não podia ter começado melhor.

E entretanto cruzei-me, algures, com poemas de Sophia de Mello Breyner, cujos títulos nunca saberei reproduzir.

 

O Presente

Cresci. Deixei os livros de lado. E voltei, alguns anos depois, a reencontrá-los e a achar neles a melhor fonte de alimento para os sonhos. E foi aqui que me reconciliei com a poesia. A minha professora, a quem muito tenho a agradecer, ajudou. E pronto. Cá estamos.

De nomes como Almeida Garrett, a Ondjaki, Cesário Verde, Alexandre O'Neill António Nobre, Matilde Campilho... Enfim. Foram muitos poemas que li, muitos livros que folheei.

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 E, então, numa tarde sem nada para fazer...

Folhas Caídas (Almeida Garrett) pode ser nomeado o livro que me fez cair de novo nas graças deste género literário. Numa edição já muito antiga e amarela, andava perdido por casa da minha avó. Penso que nunca ninguém lhe tinha pegado, porque, apesar de apresentar marcas do tempo, marcar de leitura nem vê-las. Numa tarde de verão, peguei nele, li-o, e fiquei de queixo caído. Soberbo. Aliás, estou a pensar em relê-lo em breve.

 

Entretanto, li "um outro poema" de Cesário Verde, de Alexandre O'Neill, de António Nobre, porque, no 8º ano, juntei-me ao Clube de Poesia da escola. E foi aqui que conheci, muito provavelmente, o meu poema favorito. De 1938, escrito pelo britânico W. H. Auden, com o título Funeral Blues.

Funeral Blues

Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message 'He is Dead'.
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever: I was wrong.

The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun,
Pour away the ocean and sweep up the wood;
For nothing now can ever come to any good.

Tradução:                                                                                                                        Parem todos os relógios, desliguem o telefone, 

Evitem o latido do cão com um osso suculento, 
Silenciem os pianos e com tambores lentos 
Tragam o caixão, deixem que o luto chore. 

Deixem que os aviões voem em círculos altos 
Riscando no céu a mensagem: Ele Está Morto, 
Ponham gravatas beges no pescoço dos pombos brancos do chão, 
Deixem que os polícias de trânsito usem luvas pretas de algodão. 

Ele era o meu Norte, o meu Sul, o meu Leste e Oeste, 
A minha semana útil e o meu domingo inerte, 
O meu meio-dia, a minha meia-noite, a minha canção, a minha fala, 
Achei que o amor fosse para sempre: Eu estava errado. 
As estrelas não são necessárias: retirem cada uma delas; 
Empacotem a lua e façam o sol desmanchar; 
Esvaziem o oceano e varram as florestas; 
Pois nada no momento pode algum bem causar. 

 

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Mais tarde, quando comecei a ler Ondjaki, depois de tantas vezes ver nos seus livros referências à poesia e àquilo que era a poesia, decidi pesquisar, na biblioteca, poesia dele. Encontrei Há Prendisajens Com o Xão. Ondjaki já era um dos meus autores favoritos. E, depois disto, só consolidou o seu lugar como um dos melhores escritores que conheci. Neste pequeno livro, o autor explora a natureza, no seu estado puro. É lindo, lindo, lindo.

 

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Entretanto, passei pelo Pedro, Lembrando Inês, de Nuno Júdice, numa tentativa falhada de "fazer as pazes" com Inês de Castro, de quem não sou fã, desde que li uma biografia sobre a sua outra face, que poucos conhecem. Embora reconheça uma bonita capacidade de escrita poética do Nuno, o livro ficou um pouco abaixo do que esperava. É bonito, sim. Tocante e, por vezes, triste. Mas não me conquistou. De todo.

 

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E depois conheci o feminismo. E, depois de já estar completamente mergulhada no assunto, foi lançado em Portugal Leite e Mel, de Rupi Kaur. Tornou-se um favorito. Fez-me sorrir, acreditar mais em mim e, de certo modo, até mesmo perceber-me melhor. Mas também me deu duros murros no estômago, fez-me chorar e refletir seriamente sobre as palavras que, apesar de simples, dizem muito ao leitor. Aliás, até escrevi uma opinião sobre o livro no começo do blog e lembro-me que queria agradecer à autora por, de certo modo, revolucionar-me um pouco.

 

Mais recentemente li um livro um pouco parecido ao Leite e Mel, The Princess Saves Herself In This One, que, apesar de não ser mau, não foi tão bom o quanto esperava. Mas, quem gostou do trabalho de Rupi Kaur pode sempre dar uma oportunidade ao livro de Amanda Lovelace.

 

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Mas, antes desse livro, veio o Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança, escrito por Manuel António Pina e publicado em 1999. E, digo-vos, se pudesse, abraçava-me tanto, tanto, tanto a este livro e nunca mais o deixava sair de perto de mim. Foi-me oferecido no final do 9º ano, aquando da despedida daquela mesma professora que me despertou o gosto pela poesia. Ela deu-mo. Disse-me que ia gostar. E o certo é que não gostei. Adorei. Muito, muito, muito. Não consigo explicar o quão importante é este livro para mim. Nunca sairá da minha estante. Nunca.

 

O Futuro

Não está nos meus planos deixar este lado de adepta fervorosa de poesia, pelo que, para o futuro, vou, de certo continuar a ter na poesia uma amiga, uma confidente e, sobretudo, um mar infinito de expressão.

 

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E, para os curiosos que se questionaram "Que título é este?", passo a explicar: num dos meus livros favoritos de SEMPRE, Uma Escuridão Bonita (não é poesia, mas altamente recomendo), Ondjaki pintou uma das frases mais bonitas que já vi:

A poesia não é a chuva, é o barulho da chuva."

- Ondjaki, Uma Escuridão Bonita

Para rematar, e porque este post já vai longo, resta-me apenas agradecer à Angie do blog The Little Angie que me sugeriu fazer um post sobre poesia (por onde começar, sugestões de leitura...). E, bem, penso que foi o que fiz, talvez de uma maneira um pouco confusa e estranha.

Leiam poesia. Faz bem à alma.

Até breve! 😊