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literatura, cinema e afins

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Ter | 07.08.18

Literatura | Opinião: "Perguntem a Sarah Gross", de João Pinto Coelho

Mar Pereira

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Título: Perguntem a Sarah Gross

Autor(a): João Pinto Coelho

Edição: 2015

Editora: Dom Quixote

ISBN: 9789722057103  

Sinopse: "Em 1968, Kimberly Parker, uma jovem professora de Literatura, atravessa os Estados Unidos para ir ensinar no colégio mais elitista da Nova Inglaterra, dirigido por uma mulher carismática e misteriosa chamada Sarah Gross. Foge de um segredo terrível e procura em St. Oswald’s a paz possível com a companhia da exuberante Miranda, o encanto e a sensibilidade de Clement e sobretudo a cumplicidade de Sarah. Mas a verdade persegue Kimberly até ali e, no dia em que toma a decisão que a poderia salvar, uma tragédia abala inesperadamente a instituição centenária, abrindo as portas a um passado avassalador. 

Nos corredores da universidade ou no apertado gueto de Cracóvia; à sombra dos choupos de Birkenau ou pelas ruas de Auschwitz quando ainda era uma cidade feliz, Kimberly mergulha numa história brutal de dor e sobrevivência para a qual ninguém a preparou.
Rigoroso, imaginativo e profundamente cinematográfico, com diálogos magistrais e personagens inesquecíveis, Perguntem a Sarah Gross é um romance trepidante que nos dá a conhecer a cidade que se tornou o mais famoso campo de extermínio da História. A obra foi finalista do prémio LeYa em 2014."

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Esta foi a leitura que sucedeu a O Meu Irmão, vencedor do Prémio Leya, em 2014, e, curiosamente, esta mesma obra foi finalista desse prémio, nesse ano.

Perguntem a Sarah Gross vai dar ao seu leitor um leque de variadas personagens, épocas e localizações, sendo o objetivo principal dar a conhecer mais sobre a vida de Sarah Gross, uma das personagens principais do livro. De relembrar que se trata de um livro de ficção.

Digo uma das personagens principais porque, de facto, o livro acaba por ter duas: a Sarah, cujo passado iremos explorar e conhecer minuciosamente, e a Kimberly, encarregue de nos guiar pelas ações correntes, no momento presente. 

Tudo começa quando, um dia, Kimberly decide candidatar-se ao cargo de Professora de Literatura, num dos colégios mais conceituados dos Estados Unidos, St. Oswald’s. É aí que irá conhecer Sarah, uma mulher de ideias fortes e com um carisma próximo do revolucionário, já que o colégio que dirigia tinha doutrinas extremamente discriminatórias: as raparigas foram, durante muitos anos, privadas de lá estudar e, além disso, todos os alunos de St. Oswald’s são caucasianos/brancos, tendo, na sua maioria, uma mentalidade fechada, muito à semelhança dos pais e, até, de alguns professores do referido estabelecimento de ensino. 

Este corpo docente é tão estável como um jardim de árvores secas. Qualquer flor que lá nasça destaca-se a léguas." (pág. 58)

Ao longo do livro percebemos que, efetivamente, a diretora de St. Oswald’s tem ideias diferentes. Sarah quer tornar aquele colégio um local onde exista igualdade e, para conseguir atingir o seu objetivo, vai lançando certos cartuchos que nem sempre caem bem nas graças dos pais dos estudantes do colégio e dos professores que nele lecionam. 

Mas nem só de colégios para meninos ricos e vazios é feito este livro. Quando somos introduzidos a narrações da década de 20 e 30, vamos presenciar uma outra realidade, mas, no fundo, quase semelhante à anteriormente caracterizada. Realidade de uma Europa destruída e da ascensão dos regimes fascistas e ditatoriais, focando, com maior incidência, o nazismo de Hitler. 

(...) um povo humilhado é como um animal ferido, senhora Gross. Quando se perde tudo, o ódio pode ser a única fonte de alento. Resta saber qual o alvo escolhido." (pág. 134)

É um enredo ambicioso, aquele que João Pinto Colho se propõe a oferecer nesta obra literária. No entanto, a história está extremamente bem conseguida. Aliada à sua forte capacidade de contar histórias, temos a grande base de informação de que o autor dispõe. Basta lermos a pequena biografia apresentada numa das badanas do livro para percebermos que este é um autor que efetivamente percebe do que fala. A mero título de exemplo: "Em 2009 e 2011 integrou duas ações do Conselho da Europa que tiveram lugar em Auschwitz (Oswiécim), na Polónia, trabalhando de perto com diversos investigadores sobre o Holocausto".

No fundo, Auschwitz era assim e, enquanto o mundo rodasse ao contrário, as histórias de sobrevivência continuariam a ser escritas com sangue e lágrimas." (pág. 418)

As personagens, são, também elas, de grande interesse. Todas elas, sem exceção. Isto porque se desfloram em várias camadas, não são de modo algum superficiais, o que eleva o enredo a um patamar de excelência. 

Por fim, quanto à escrita do João Pinto Coelho tenho apenas elogios a dar. Realmente, a sinopse promete um cenário cinematográfico e cumpre a promessa. A escrita do João é tão visual que, ao descrever as décadas de 20, 30, 60 e 70 e localizações como os EUA, Polónia e Alemanha, o visitante do seu livro sente quase que, ao comprar um livro, acabou por comprar um bilhete de avião para viajar por diversos países e outro para viajar no tempo. 

Apesar de, por tudo o que acima referi, julgar Perguntem a Sarah Gross uma obra excecional, recheada de informação (fruto de uma vasta e notória investigação do autor), não posso dizer que tenha sido um livro que me marcou, de todo. Estou já careca de dizer isto, mas livros com o ambiente do Holocausto não funcionam comigo. Já li alguns e nunca consegui apreciar nenhum. Gosto de ler livros sobre a 2ª Guerra, mas passados, por exemplo, na Alemanha, como é o caso d'A Rapariga Que Roubava Livros que é um dos meus livros favoritos de sempre, ou em Inglaterra, explorando um pouco a estratégia das forças aliadas, até mesmo na França ocupada, presente, por exemplo, n'O Rouxinol (ainda está por ler na estante). Mas leituras que tenham por base o Holocausto não são para mim. Não me perguntem porquê, porque nem eu sei.

Decidi, mesmo assim, dar uma oportunidade a este livro porque só ouvia maravilhas. Aliás, uma antiga professora de Português com quem ainda mantenho contacto recomendou-me este livro. "Vais ver que é bom", disse ela. E é. É muito bom. Na minha opinião, em termos de qualidade, é livro acima da média, sem qualquer tipo de dúvidas. Enredo bom, escrita fantástica e um resultado final extraordinário. Mas este livro não me tocou. Nunca me consegui conectar à histórias ou às personagens, apesar de, mais uma vez, considerar ambas muito boas. Portanto, a frase que melhor descreveria melhor a minha experiência com este livro é uma repetida e chata frase utilizada entre os membros de um casal: o problema não és tu, sou eu. Porque é exatamente essa a situação. 

Não hesitaria a recomendar o livro a ninguém. É mesmo muito bom. Comigo, não funcionou, mas, enfim, não podemos gostar todos do mesmo, certo? 

Termino esta opinião com a frase que nos introduz, após a nota do autor, ao livro. Já por si esta frase é dona de um poder imenso. 

Ergue os olhos e contempla o céu: é um cemitério, um cemitério invisível, o maior da História."

- Ellie Wiesel, The Holocaust, Voices of Scholars

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★★★☆☆

3/5 - Bom

 

Não referi na opinião, mas o João Pinto Coelho foi vencedor do Prémio Leya, em 2017, com o livro Os Loucos da Rua Mazur! Deixo-vos o link para algumas entrevistas feitas ao autor:

Reportagem SIC

Artigo no Público

O que têm vocês a dizer sobre o Perguntem a Sarah Gross ou sobre o seu autor?

 

Até breve! 😊

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2 comentários

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    Mar Pereira

    18.08.18

    Bem, livros do Holocausto não são mesmo para mim, daí ter achado este livro mediano. Não me disse nada.
    Quem gosta do tema vai adorar o livro. Tenho a certeza. É muito bom!
    Boas leituras, Mariana :)
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