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literatura, cinema e afins

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Seg | 16.07.18

Literatura | Opinião: "O Meu Irmão", de Afonso Reis Cabral

Mar Pereira

123.jpgTítulo: O Meu Irmão

Autor(a): Afonso Reis Cabral

Edição: 2014

Editora: Leya

ISBN: 9789896603441  

Sinopse: "Com a morte dos pais, é preciso decidir com quem fica Miguel, o filho de 40 anos que nasceu com síndrome de Down. É então que o irmão - um professor universitário divorciado e misantropo - surpreende (e até certo ponto alivia) a família, chamando a si a grande responsabilidade. Tem apenas mais um ano do que Miguel, e a recordação do afecto e da cumplicidade que ambos partilharam na infância leva-o a acreditar que a nova situação acabará por resgatá-lo da aridez em que se transformou a sua vida e redimi-lo da culpa por tantos anos de afastamento. Porém, a chegada de Miguel traz problemas inesperados - e o maior de todos chama-se Luciana.
Numa casa de família, situada numa aldeia isolada do interior de Portugal, o leitor assistirá à rememoração da vida em comum destes dois irmãos, incluindo o estranho episódio que ameaçou de forma dramática o seu relacionamento.
O Meu Irmão, vencedor do Prémio LeYa 2014 por unanimidade, é um romance notável e de grande maturidade literária que, tratando o tema sensível da deficiência, nunca cede ao sentimentalismo, oferecendo-nos um retrato social objectivo e muitas vezes até impiedoso."

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Quando gosto muito de um livro, apetece-me dizer muita coisa. Quando gosto muito de um livro, é raro conseguir explicar ou exprimir o porquê de ter gostado assim tanto das palavras que li naquelas páginas. Ora, cria-se aqui um problema: tenho muito para dizer, mas não sei como. Porquê? Tenho medo de não ter a capacidade para exprimir de modo claro e evidente a qualidade do determinado livro. 

Mas vamos tentar tornar as coisas um pouco mais fáceis. Afonso Reis Cabral foi premiado, em 2014, com o Prémio Leya, prémio esse que, além de possibilitar a publicação da obra posta a concurso, oferece ao autor uma quantia de 100.000€ (cem mil euros). De relembrar que todos os anos são submetidas centenas de obras a este prémio que tanto valoriza a literatura lusófona.

Quando O Meu Irmão, em 2014, foi então declarado vencedor, por unanimidade, do Prémio Leya, as notícias depressa fizeram circular a informação que o trineto de Eça de Queiroz tinha vencido um dos mais importantes prémios literários do nosso país. Ou seja, acabaram por reduzir a vitória de Afonso e a qualidade da obra à sua árvore genealógica.

Talvez nessa altura não se soubesse bem o escondia Afonso Reis Cabral nas páginas do seu segundo livro (isto porque, aos 15 anos, o autor tinha já publicado um livro de poesia), mas, agora, é impensável reduzir uma das maiores obras primas que tive o prazer de ler aos laços familiares que acompanham o seu autor. 

Esta história segue o percurso de dois irmãos, a nossa personagem principal, cujo nome nunca será revelado, e o Miguel, que tem síndrome de Down. Começamos a leitura quando, após a morte dos pais, os dois irmãos se dirigem para o Tojal, uma pequena aldeia, situada na "viúva que é o interior de Portugal" (pág. 265) e habitada apenas por um casal de idosos e o seu filho, que, ao contrário de todos os irmãos, não havia partido para outros países ou cidades para trabalhar.

O livro alterna entre o momento presente, no Tojal, e recordações do passado, tanto da personagem principal como do irmão Miguel. Incluindo relatos do amor que surgiu entre Miguel e Luciana, uma rapariga também deficiente e com uma história, no mínimo, arrepiante. E a vida do nosso protagonista, enquanto homem divorciado, professor universitário e adepto do verbete. 

Quanto ao enredo, isto é o que se pode contar. O tema é delicado, sim. Mas é tratado de uma maneira crua e realista. Não existem floreados. 

Quando um adulto passava por nós, colocava a mão no ombro dele, como a incentivá-lo. Eu aconselhava-o a continuar a terapia porque talvez conseguisse por fim desatar a língua ou ordenar os grunhidos e, assim, conversar comigo. Percebê-lo não era o mesmo que conversarmos" (pág. 23)

Talvez porque o próprio autor tenha passado por isto mesmo. Como o próprio já referiu em entrevistas, o livro aborda uma realidade que conhece de perto, já que também um dos seus irmãos é deficiente. Mas é importante notar que O Meu Irmão é, na sua totalidade, um romance ficcionado e nunca um relato autobiográfico. 

Mas, apesar de ser um tema delicado, somos rapidamente engolidos pelas páginas do livro. A maneira como as duas narrativas (a do presente e a do passado) se acabarão por cruzar deixará o leitor espantado. Ninguém, repito, ninguém!, espera o final que este livro tem. 

O ambiente, apesar de muitas vezes parecer pesado, abre espaço a alguns momentos cómicos. Um deles em particular que irá contrastar com o restante livro. Passa-se algures pelas páginas 102 e 104 e, admito, fez-me rir à gargalhada. E é relativamente complicado um livro fazer-me rir dessa maneira.

Se, por lado, tive vontade de rir nesse momento, logo no começo do livro, tive um aperto no coração tão grande que, caso não estivesse em público, tinha deixado cair uma lágrima. 

Quem fica de fora está dividido entre o medo e o desejo de ser apanhado. Todos querem ir ao meio e ninguém quer dar parte de fraco. O meu irmão não prestava porque não tinha capacidade para apanhar ninguém. Fartos, lembraram-se de outro jogo. Rodear o do meio e chamar-lhe coisas." (pág. 26)

Quando termino um livro, depois de o classificar, gosto sempre de ler algumas das opiniões deixadas no Goodreads. Quando termino um livro de que gostei muito, vou imediatamente ler as críticas negativas do livro. Uma das maiores críticas apontadas à obra de Afonso Reis Cabral é a presença de alguns momentos parados. De facto, não podemos dizer que O Meu Irmão é um livro recheado de ação, mas, vamos pensar: estamos a falar do interior de Portugal. É um autêntico deserto, onde tudo o que se vê são casas abandonadas ou de pessoas que apenas ali regressam no verão. O Tojal é precisamente a simetria desta realidade. As casas desabitadas de quem trabalha fora e a calma típica do lugar onde "o homem ainda não existia". Ora, a falta de ação criticada por muitos só me fez sentir ainda mais abraçada ao livro, fez-me sentir ainda mais dentro da história. 

E, para isso, também a escrita de Afonso Reis Cabral contribuiu. É tão simples, mas, ao mesmo tempo, tão complexa. Tão realista, tão crua, tão visual. Conquistou-me, definitivamente. Parei 3 vezes para ler este livro e nessas três vezes vi as 368 páginas que o compõem voarem. E só queria mais. Ler mais desta escrita excelente que o autor tem. 

Quando não há solução, enfrentamos a realidade, fazemo-nos homens. Adapamo-nos. Sobrevivemos. Vencemos, lutamos, ou pelo menos somos derrotados em grande no combate que é a vida. Com o Miguel não se passa isso, ele mantém-se no mesmo estado de espírito, à semelhança de um pássaro de asa partida que ainda salta para voar. Salta e magoa a asa." (pág. 80)

Este autor tinha 24 anos quando venceu o prémio. 24 anos. É inacreditável como é que uma pessoa tão jovem consegue alcançar tanto. Já li tudo o que está disponível do autor, ou seja, este romance e o conto Uma História de Pássaros, publicado pelo Expresso, neste mesmo ano (2018). Mas quero mais. Mal saia um novo livro de Afonso Reis Cabral, eu compro-o. 

Bem, esta opinião estendeu-se bastante. Está longa, o que é raro. Mas o livro marcou-me muito. Além disso, o facto de alguns momentos do livro remeterem para a cidade do Porto (a minha cidade!), como referências à Estação de S. Bento e à Avenida dos Aliados, só o tornou ainda mais próximo de mim.

Como disse no Goodreads, não tenho uma única crítica a apontar. Desde o enredo, às personagens, à escrita... Tudo me encheu as medidas. 

Sabem aquele sentimento maravilhoso de começar um livro, sentir-se entre as personagens, ver as ações a decorrer perante os nossos olhos, devorar todas as páginas que a obra oferece e, quando terminamos, sentirmos um enorme vazio dentro de nós? Foi assim que este O Meu Irmão me fez sentir. Entrou diretamente para o leque de livros favoritos. Do ano e da vida.

É um livro fenomenal. E, apesar do António Lobo Antunes ter dito que  "um jovem de 24 anos não é capaz de escrever uma obra-prima" ou "Ninguém faz um livro aos 24 anos. Nem o Tolstoi", pois a minha modesta pessoa, enquanto leitora, diz o contrário. Para mim, este O Meu Irmão é uma verdadeira obra-prima da literatura nacional. 

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★★★★★

5/5 - Excelente

 

Caso tenham interesse em ver mais alguns factos sobre o autor, porque, pessoalmente, depois de ler a obra, tive interesse em procurar conhecer mais sobre as suas inspirações, deixo-vos aqui alguns links que podem ser úteis:

» Entrevista ao DN

» Entrevista ao JPN

» Entrevista à SIC

» Uma outra entrevista

 

Espero que tenham gostado, apesar de ter sido uma opinião gigante. Conheciam o livro? Já leram ou ficaram com interesse em ler?

 

 Até breve! 😊

 

 

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