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literatura, cinema e afins

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Seg | 09.07.18

Literatura | Opinião: "Fado", de José Régio

Mar Pereira

123.jpgTítulo: Fado

Autor(a): José Régio

Edição: 2011 

Editora: A Bela e o Monstro

ISBN: 9789898508201

Sinopse: "Fado (1941) partilha daqueles traços marcantes da poesia do autor evidenciando uma faceta trágica e expressionista que por momentos atinge algum paroxismo. O sujeito lírico revela-se sensível à tragédia de tipos sociais e humanos afligidos por uma chaga moral, um fado, e que não vislumbram nem encontram qualquer oportunidade social de se realizarem. Há neste livro (cf. "Fado dos Pobres"), como nalguma da sua narrativa, vultos humanos e sociais - velhos, prostitutas, dementes, estropiados, artistas marginais, mulheres desencantadas- dignos de Raul Brandão. Constata-se uma atenção ao "pathos" feminino ("Fado das mulheres de vida fácil"), que aliás também atravessa a galeria feminina da narrativa do autor (nomeadamente no mencionado livro Histórias de Mulheres) e uma espécie de reconciliação amarga ou comunhão secreta com estas almas perdidas (cf. "Fado do Amor"; "Fado-Canção").

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Fado, publicado pela primeira vez em 1941, além de poesia, encerra em si a descrição de Portugal e a resposta para a questão "o que é ser português?". 

Este é um livro que relata em verso realidades frias, cruas: as das prostitutas, do crime, da vida da noite, dos marinheiros, do amor desconhecido, da religião. A realidade das cidades portuguesas. 

É no mínimo surpreendente compreender como consegui José Régio compilar num só livro tantas temáticas, que, de resto, estarão a andar lado a lado ao longo das poucas páginas. 

É um livro que nos dá um retrato detalhado de cidades como Portalegre, Coimbra e Vila do Conde. Todas com uma especial ligação ao autor que as descreve de um modo absolutamente extraordinário. 

Neste que é um livro tipicamente português, já que recorre muitas vezes às raízes da nossa cultura que estão semeadas no mar, José Régio revela uma capacidade que pode agradar àqueles que não são grandes apreciadores de poesia: em verso, com uma escrita simples que descarta por completo aqueles floreados que ora tornam a poesia bela ora a tornam enfastiante, Régio tem a capacidade de contar uma estória. Por exemplo, da origem do fado (enquanto música). Onde? No poema «Fado Português», o meu preferido de todo o livro. E começa assim...

O fado nasceu num dia,
Em que o vento mal bulia
E o céu o mar prolongava,
Na murada dum veleiro,
No peito de um marinheiro
Que estando triste, cantava."

- José Régio, Fado

Caso tenham curiosidade, de tão belo que é o poema, foi interpretado pelas vozes de Amália Rodrigues e Dulce PontesA palavra fado é muitas vezes associada apenas à música tradicional portuguesa, mas, além disso, fado significa destino. Acho engraçado como, subitamente, tudo se junta. A música, o destino. 

Em suma, resta-me dizer que adorei o livro. Custou-me 1€ (a edição corresponde precisamente àquela apresentada acima), mas podem facilmente encontrá-lo a 5€ ou menos. Pelo menos, as 2 edições que conheço têm preços abaixo desse valor. É uma autêntica pechincha. 

Embora seja muito pouco conhecido, vale a pena. Pelo preço, pela qualidade, pela escrita. Por tudo.

 

Leitura para o #LerOsNossos, #MaratonaÀBeiraMar e #BookBingoLeiturasAoSol2.

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★★★★☆

4/5 - Muito Bom

 

 Até breve! 😊