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literatura, cinema e afins

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Sab | 08.09.18

Escrita | Escrever um livro é um processo fácil?

Mar Pereira

Crescemos a ouvir que, antes de morrer, temos de fazer três coisas: plantar uma árvore, ter filhos e escrever um livro.

Não sei se é o resultado dessa crença habitual passada de geração em geração, mas, de facto, quando entramos numa livraria vemos estantes recheadas de livros de diversos géneros, tamanhos, preços e autores. Mas será que escrever um livro é um processo fácil? Fiz essa mesma pergunta a quem escreve – online, secretamente ou para grandes públicos – ou a quem lê os livros que são publicados algures e que esperam, quem sabe, pela eternidade. Eis o resultado...

 

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Escritora

  • Nome: Patrícia.
  • Idade: 19 anos.
  • Escreve online/secretamente/tem livros publicados: Escrevo em um caderno que não está partilhado na internet.
  • Redes Sociais: Instagram, Blogue.

O que o levou a escrever?

O que me levou a escrever foi por vezes, estar a criar memórias incríveis que nunca queria esquecer então queria incorporar essas memórias por escrito, mas sem se tornar em um diário, mas sim uma história, juntando metáforas e personificações para ficar algo sólido.

Comecei à vários anos a escrever em conjunto e adorava mas não tínhamos algo viável para continuar a história só queríamos escrever, agora com este meu novo “projeto”, sinto-me diferente pois tenho um fio condutor!

→ Por que razão escreve?

Continuo a escrever para o melhoramento da minha criatividade e expressão de memórias, quem sabe mais tarde reformular tudo e torná-lo público.

→ A escrita é ou não um processo complicado?

Complicado é favor pois no ponto de vista de leitora, escrever um livro tem que se tornar como o meu livro preferido.

 

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Leitora

  • Nome: Marta.
  • Idade: 19 anos.
  • Escreve online/secretamente/tem livros publicados: [Não escreve]
  • Redes Sociais: Blogue, Instagram, Twitter.

→ Alguma vez teve uma experiência com a escrita, para além da escola? Ou seja, alguma vez tentou escrever um livro? Se sim, por que razão parou?

Quando tinha cerca de doze anos, descobri o mundo da fanfiction, primeiramente no Facebook e, mais tarde, no Wattpad, o que de certa forma me inspirou a começar a eu própria a escrever e publicar as minhas criações (apesar de sempre ter gostado de escrever, mesmo antes disso). Tenho algures em casa umas páginas que escrevi, devia andar ainda na escola primária, de uma história inspirada nos bonequinhos da Littlest Pet Shot. E cheguei mesmo a participar em concursos de escrita. No entanto, senti a necessidade de parar, quando a minha imaginação deixou de fluir e as obrigações académicas se sobrepuseram.

→ Qual é a sua perceção da escrita de um livro? Parece-lhe um processo complicado ou relativamente fácil?

Acredito que dependa de pessoa para pessoa, mas não é decididamente fácil. Para uns, o processo da escrita pode ser levado a cabo mais rapidamente, enquanto que a edição possa ser uma maior dor de cabeça. Para outros, terminar um projeto pode ser a pior parte, uma vez que existem inúmeros obstáculos, como a preguiça, a falta de imaginação, um bloqueio literário, …

 

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Escritor

  • Nome: creepysantos (Vasco).
  • Idade: 21 anos.
  • Escreve online/secretamente/tem livros publicados: Escrevo secretamente. Não publico em lado algum, apenas guardo algumas das minhas experiências.
  • Redes Sociais: YouTube, Facebook, InstagramBlogue.

O que o levou a escrever?

Acho que todas as pessoas têm necessidade de contar histórias. Há uma vontade imensa no contacto com os outros, na conversa. Há algo primordial que nos “obriga” a comunicar e a criar.

Quando penso na possibilidade de escrever um livro a solo, penso-o de uma forma muito específica: uma coletânea. Não consigo sequer imaginar a possibilidade de preencher pelo menos 200 páginas em branco com uma história só. Enquanto “autor” (e aqui com muitas aspas), sou consequência das vivências do peão social em que habito, e por isso, do meio de tantos conflitos, é impossível (para mim) cingir-me a uma narrativa. Faz-me confusão esse envolvimento longo, tenho uma necessidade voraz de escrever mais e diferente.

→ Por que razão escreve?

“(…) tenho uma necessidade voraz de escrever mais e diferente.”

→ A escrita é ou não um processo complicado?

É, completamente. Passamos tanto tempo à volta da mesma história (ou até mesmo de um conto). Desse tempo resulta um envolvimento. Como consequência desse envolvimento tornamo-nos mais autocríticos o que pode levar a uma insatisfação constante (com isto não quero dizer que se deve ficar imediatamente contente após o primeiro rascunho, mas que o mesmo deve ser melhorado aos poucos, e que enquanto criadores, por vezes, precisamos de manter alguma distância).

Por isso é que opto por escrever contos (por norma têm uma ou duas páginas). Gosto da sensação de satisfação imediata: apetece-me escrever, escrevo, e termino, tudo isto em apenas uma hora. Se o resultado me agrada é outro assunto, porque afinal posso guardar aquele rascunho e voltar a ele mais tarde. Outra questão é ávida vontade que as personagens que crio têm de acabar (o que também incapacita o meu poder de as levar longe. Normalmente elas não sabem onde estão, para onde vão, e tampouco conhecem o seu destino. Talvez queiram acabar por estar a habitar num local e num corpo que desconhecem. Talvez precisem de se ambientar. Não posso ser tão prematuro e atirá-las de imediato aos leões.

 

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Escritora

  • Nome: Raquel Pereira.
  • Idade: 26 anos.
  • Escreve online/secretamente/tem livros publicados: Secretamente.
  • Redes Sociais: FacebookInstagramBlogue.

 O que o levou a escrever?

Para mim é difícil determinar um ponto do tempo em que comecei a escrever. A minha memória mais antiga é de escrever uma história baseada nos livros do Harry Potter quando a palavra fanfiction ainda não era comum. Tinha, provavelmente, oito ou nove anos de idade. Escrevi-a num dossiê verde do Winnie The Pooh - que ainda tenho - mas, a minha mãe diz que comecei a escrever antes disso. Segundo ela, rescrevia os meus filmes preferidos na Disney - O Rei Leão e o Aladdin - embora não tenha qualquer memória disso. Ela diz que se lembra perfeitamente porque pedia-lhe para fazer os desenhos que acompanhavam as histórias. Também não me lembro do exacto momento em que decidi que publicar um livro era um sonho meu pois, de algum modo, é como se ele estivesse sempre lá.

→ Por que razão escreve?

Faço esta pergunta a mim mesma todos os dias. Não sei. Posso dizer com toda a certeza deste mundo que a minha vida seria muito mais fácil se deixasse simplesmente de escrever e me limitasse à leitura. Deixar de o fazer é uma ideia muito apelativa, não vou mentir e às vezes há dias em que nem sequer eu própria compreendo porque o faço. É quase como se fosse masoquista.

Há pessoas que possivelmente vão responder que é algo através do qual retiram algum divertimento ou que procuram concretizar um sonho, para mim é - e espero não estar sozinha - igual mas simultaneamente diferente. Tendo em conta a resposta acima dada, para mim escrever é uma forma de manter a sanidade mental e, talvez por isso, ainda não tenha um livro publicado com o meu nome próprio. Mas claro que adoraria provocar nos outros a sensação que os livros provocam em mim e viver disso - o que em Portugal é quase impossível.

Em mim, as ideias surgem de forma constante, através de uma pintura, de um livro, de um filme ou de algo que ouvi, e o meu cérebro desenvolve-as de tal maneira que se não as colocar em algum local a minha atenção para as tarefas do dia-a-dia diminui exponencialmente e deixo de ser uma humana produtiva.

→ A escrita é ou não um processo complicado?

Há uma frase famosa de Ernest Hemingway que gosto de citar quando me dizem que escrever é fácil. There is nothing to writting. All you do is sit down at a typewriter and bleed. No goodreads há milhares que apoiam o meu caso pois se alguém disser que escrever não é um processo complicado, das duas, três: ou está a mentir, ou está iludido ou tem um ghostwritter. Não há outra escolha.

Ter ideias e desenvolvê-las para mim é fácil, não é um processo complicado. É o que há de mais simples em todo o processo de tentar escrever um livro. Agora, escrever essas ideias, fazer com que elas façam sentido, que provoquem emoções no leitor e que sejam fáceis de visualizar e realistas, isso sim, é difícil. Tentar escrever numa linguagem correcta e com uma gramática perfeita é o meu Santo Graal.

As ideias, a minha outline, apresentam-se quase como um filme. Imaginem o vosso filme preferido e tentem escrevê-lo não em formato de guião, mas em livro. Descrever as cores, o vento, as emoções. Escrever sobre a profundidade de um olhar ou a magia de um toque. E Deus vos livre de tentarem fazê-lo sobre um mundo de fantasia onde tudo é criado de raiz. Os nomes, a política, as plantas e as criaturas. Tentem ligar de forma não- atabalhoada os pontos entre os personagens.

Escrever é um processo complicado que drena energia, confiança e positividade a uma pessoa. É cansativo, quase como viver duas ou mais vidas pois, para além da nossa, estamos constantemente na cabeça de outra pessoa, a viver a sua vida e a sentir as suas emoções. Há quem diga que isso é bom pois é quase como se vivêssemos mais do que as outras pessoas. Mas também temos o dobro de corações partidos, da dor e das lágrimas. E embora voltar atrás para ler as palavras já criadas seja um sentimento fantástico, escrever as palavras que levam a essa emoção é difícil e um trabalho extenuante.

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Leitora

  • Nome: Sara Cristina.
  • Idade: 22 anos.
  • Escreve online/secretamente/tem livros publicados: [Não escreve] Escrevo de vez em quando haha 
  • Redes Sociais: Youtube.

→ Alguma vez teve uma experiência com a escrita, para além da escola? Ou seja, alguma vez tentou escrever um livro? Se sim, por que razão parou?

Sempre tive especial interesse pela escrita, mesmo na altura da escola. Apesar de na altura dar imensos erros de ortografia, sempre foi algo que gostava de fazer. Já tentei e não posso revelar muito. Estou a tentar escrever algo que tenha estrutura, mas como não gosto de me sentir pressionada para nada... escrevo quando me sinto realmente inspirada.

→ Qual é a sua perceção da escrita de um livro? Parece-lhe um processo complicado ou relativamente fácil? 

Acho um processo bastante complicado, uma vez que é algo solido e também um projecto que irá ser avaliado (caso seja publicado). Acho que os escritores têm de pensar sempre muito bem nas palavras que vão utilizar e qual a estrutura. Muitas vezes temos de pensar também no outro que irá ler, e não apenas na forma como gostamos de escrever. Por vezes também é necessário sairmos da nossa zona de conforto e procurar outras perspectivas. Para não falar que é um trabalho que requer trabalho diário e muita paciência.

 

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Escritora

  • Nome: Tânia Dias.
  • Idade: 20 anos.
  • Escreve online/secretamente/tem livros publicados: Tenho livros publicados: Despedaçada – Chiado Editora; Fénix – Chiado Editora; Também participei em : Entre Monstros e Dragões  da Chiado Editora.
  • Redes Sociais: Facebook, Instagram, Blogue.

  O que o levou a escrever?

Sempre fui muito criativa, se tivesse de pintar um desenho com quadrados tinha de os fazer a todos distintamente diferentes, então quando descobri a leitura (porque até aos meus 10/11 anos não gostava de ler) foi uma progressão natural. Se não gostava do final de um livro criava o meu próprio. Durante três ou quatro anos, escrevi fanfiction, desenvolvendo a minha forma de contar histórias e de criar personagens. Só tomei a decisão de começar a escrever algo inteiramente meu quando as minhas fics se tornaram quase inteiramente personagens minhas.

→ Por que razão escreve?

Escrever tornou-se terapêutico, uma forma de expressar aquilo que me vai na mente. Assim como uma forma de acalmar a minha mente híper criativa. Se passar muito tempo sem escrever, acabo a não me sentir tão bem, por isso, escrever não é bem uma opção, eu quase que tenho de o fazer para suportar a vida.

→ A escrita é ou não um processo complicado?

Boa pergunta. Eu acho que planear um enredo e começar um livro não é difícil. Qualquer pessoa pode ter uma ideia, mais ou menos completa, mais ou menos criativa, e começar a pô-la em papel. A parte complicada começa com continuar a escrever, as primeiras páginas são fáceis, há sempre ideias a fluir, mas à medida que se vai avançando, torna-se progressivamente mais complicado continuar. Não só pelas ideias, muitas vezes o problema não é a falta de criatividade, mas a quantidade de dúvidas que começam a surgir. Será que isto é clichê? Será que estou a descrever esta cena corretamente? E este diálogo? Será que é previsível? E se forem como eu que adoro dar pequenos indícios ao longo da história, começam a ponderar se estão a ser explícitos o suficiente…ou demasiado óbvios.

Para além disso, muitos escritores (ou talvez seja só eu) escrevem a pensar em partilhar as suas histórias com alguém, e outra dificuldade é ultrapassar aquela ‘’necessidade’’ quase compulsiva de nos compararmos a todas os escritores existentes.

Resumindo, penso que não seja o processo físico de escrever que é difícil, acho que é a componente psicológica que o torna um processo mais complicado.

 

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Somos todos escritores, só que alguns escrevem e outros não."

José Saramago

 

Até breve! 😊