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literatura, cinema e afins

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Qui | 25.04.19

Literatura | Opinião: "O Exílio do Último Liberal", de Sérgio Luís de Carvalho

Mar Pereira

Resultado de imagem para O Exílio do Último Liberal Título: O Exílio do Último Liberal

 Autor(a): Sérgio Luís de Carvalho

 Edição: 2012

 Editora: Clube do Autor

 ISBN: 9789898452214  

 Sinopse: "A história de O Exílio do Último Liberal decorre entre Londres (1832) e Lisboa (1833) e assenta num labirinto de mistérios, de segredos, de ameaças e de paixões, enquadrado pelo fog de Londres e pelas brumas de uma nação envolta em progresso e em miséria. É aí, um ambiente marcado pela Revolução Industrial, que se move um jovem exilado português às voltas com um terrível segredo: foi membro da Irmandade dos Divodignos, um grupo liberal radical que os partidários absolutistas de Dom Miguel perseguem com encarniçado ódio. Mas este é apenas o primeiro segredo dado a conhecer ao leitor… Outro há e é ainda mais obscuro e clandestino.
Por entre as sombras e os nevoeiros, movem-se vultos suspeitos. São os odiados ressurrecionistas à cata de corpos acabados de sepultar numa atividade que provoca medo e revolta."

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Conheci este livro por mero acaso, numa ida a uma livraria Bertrand, pela altura em que eles fazem uma campanha promocional chamada Ler Mais Por Menos (que, já agora, é uma excelente altura para comprar livros bons a preços ainda melhores). 

Sendo eu aluna e apreciadora de História, foi, obviamente, o tempo histórico a que o livro nos leva que me convenceu a lê-lo: século XIX, em Portugal, a Revolução Liberal e a Guerra Civil que se lhe seguiu. Mas disso falaremos mais à frente. 

Quero começar já por dizer que, muito provavelmente, pessoas que não se interessam por História ou não têm quaisquer conhecimentos sobre a Revolução Liberal Portuguesa e a Guerra Civil não gostarão/compreenderão o livro, já que para percebermos certas referências históricas (datas, locais,...) devemos ter alguns conhecimentos da época. Porém, atenção, não é preciso ser-se doutorado em História e perito no século XIX português para se ler O Exílio do Último Liberal, muito pelo contrário. Uma pesquisa rápida de cinco minutos será o fundamental para se formarem algumas bases e, felizmente, a edição da Clube do Autor é, nesse aspeto, muito cuidadosa, já que inclui uma cronologia dos factos históricos desde o final da Revolução Liberal (Constituição de 1822) até ao final da Guerra Civil (1834). Esta cronologia pode funcionar perfeitamente como moleta aquando da leitura do livro e não precisarão de muito mais para o compreender. 

Mas tentando explicar, o mais sucintamente possível, a Revolução Liberal e a Guerra Civil: 

Tudo começou quando, em 1806, Napoleão, através do Decreto de Berlim, quis aplicar à Europa o Bloqueio Continental (fecho de todos os portos aos barcos e produtos ingleses, de modo a criar uma quebra na economia britânica). Portugal (regente D. João VI) viu-se divido nesta questão já que as nossas ligações, quer comerciais, quer diplomáticas, com Inglaterra eram extremamente antigas (relembre-se que a Aliança entre os dois países é uma das mais antigas do mundo e remota ao século XIV) e o rei não queria, evidentemente, quebrá-las. E, por isso, decide ficar do lado britânico e não adere ao Bloqueio Continental imposto por Napoleão. Em consequência deste renúncia, dão-se as três Invasões Francesas (1807, 1809 e 1810). É aquando da primeira invasão que a Corte Portuguesa foge para o Brasil, sendo Portugal dominado como um protetorado inglês e relegado, agora, à posição de colónia, sendo o Brasil, o local onde habitava o rei/regente a metrópole. Além do caos político, Portugal vivia uma situação económico-financeira desfavorável. O descontentamento da burguesia, dos militares e da população em geral, levou a que, no dia 24 de agosto de 1820, no Porto, fosse iniciada a Revolução Liberal Portuguesa, que depois se iria alastrar ao resto do país e, em 1822, acabaria por ser redigida a primeira Constituição da História do país. 

Após a Revolução Liberal de 1820, a resistência ao liberalismo foi muita, em Portugal. A rainha, Carlota Joaquina, não jurara a Constituição de 1822, era manipuladora e, em conjunto com o seu filho, D. Miguel, era adepta da contrarrevolução absolutista, o que fizera com que a nobreza e o clero, claramente descontentes com a Constituição de 1822 que lhes retirava poderes, e, por duas vezes, existiram tentativas de golpes de estado absolutistas que não foram, no entanto consumados (Vila Francada, em 1823; Abrilada, em 1824 - situação que terminou com o exílio de D. Miguel). Nisto, chegamos a 1826, ano em que D. João VI morre e surge um problema de sucessão, já que, não esqueçamos, D. Pedro, o herdeiro natural do trono, era Imperador do Brasil (desde 1822) e D. Miguel, como já vimos, tinha ideias absolutas e estava exilado. O problema foi resolvido com um Conselho de Regência, liderado pela Infanta Isabel Maria, que pede ajuda ao irmão D. Pedro que, novamente, se recusa a regressar a Portugal, mas envia, no entanto a Carta Constitucional de 1826, que anula a Constituição de 1822.

D. Pedro acaba por abdicar do direito à coroa em favor de sua filha, D. Maria da Glória, que tem, nesta altura, 7 anos, não estando, por isso, apta a governar o país. E D. Pedro sabe que a única pessoa capaz dessa função, a única pessoa que foi formada nesse sentido, é o irmão, D. Miguel. Então, promete-lhe a filha em casamento. Em contrapartida, D. Miguel governará em nome de D. Maria, enquanto ela não tem idade para ser corada, e depois tornar-se-á rei consorte. Para isto se concretize, é obrigatório que D. Miguel jure, assine e cumpra a Carta Constitucional de 1826, e, então, ele regressa do exílio e assume a regência do país. Porém, em 1828, D. Miguel não cumpre o prometido, aclama-se rei absoluto, abusa do poder e reprime o liberalismo e, por consequente, dá-se a fuga de várias pessoas para Inglaterra e França e o início da Resistência Liberal. Em 1832, as forças liberais desembarcam no Mindelo, a guerra Civil está iniciada: de um lado, os liberais, apoiantes de D. Pedro e D. Maria; do outro lado, os absolutistas/miguelistas, apoiantes de D. Miguel. A Guerra Civil entre Liberais e Absolutistas durará até 1834, altura em que D. Miguel assina a Convenção de Évora-Monte e é exilado novamente.

 

Voltando ao Exílio do Último Liberal, o livro segue a história de Salvador, um exilado liberal que fugia, como tantos outros, às perseguições dos absolutistas (referidas acima) e acaba por encontrar em Inglaterra um lugar seguro para viver. A sua vida, em Londres, gira à volta de Rose, a sua noiva, e do seu trabalho: vasculhar os cemitérios da cidade, em busca de cadáveres, para os levar a um médico que os disseca. A dissecação de corpos, apesar de ser prática comum, era considerada um crime, tanto pelo Estado como pela Igreja, o que não impedia, no entanto, as pessoas de o fazerem (já no Renascimento era um hábito comum, veja-se, por exemplo, Miguel Ângelo ou André Vesálio). A história vai-se desenvolvendo a partir daqui, terminando a espiral num final surpreendente e, para mim, inesperado.

No geral, gostei do livro. Gostei das personagens, os diálogos estão muito bem construídos, de modo que até conseguimos "ouvir" algumas personagens a falar daquele modo (isto é, existem marcas características da oralidade) e a forma como a história se interliga entre Portugal e Inglaterra é muito bem conseguida. A nível histórico, e porque o livro é baseado em factos reais, diria que é um livro sublime. Sérgio Luís de Carvalho (1959 - ) é professor de História o que, só por si, lhe dará alguma autoridade, mas, consultando a bibliografia organizada por assuntos, percebemos que o autor fez uma pesquisa quase exaustiva sobre todos os temas tratados, a fim de não se enganar em factos e realidades passadas e não cometer, portanto, erros. Mas não só a nível histórico o livro se destaca por ser exímio. Relembro que Salvador busca cadáveres que serão depois dissecados, ou seja, o livro navega na temática da Medicina e, de modo a tentar, novamente, manter as coisas o mais reais e fidedignas possível, o autor consultou vários médicos que, segundo ele menciona nos Agradecimentos, lhe deram "esclarecimentos científicos". Por este trabalho de pesquisa e fidelidade, o livro é elevado a um patamar bastante elevado, na minha opinião. 

Não sei se podemos dizer que é uma narrativa extremamente empolgante, porque, de facto, achei certas partes ligeiramente enfadonhas, mas, na parte final, é uma narrativa de tirar o fôlego, disso não tenho dúvidas. 

As considerações gerais que faço do livro são, obviamente, positivas, apesar de considerar que este não é, de todo, um livro que agrade a gregos e a troianos. Porém, se a temática vos desperta algum interesse, O Exílio do Último Liberal é sem dúvida um livro a ter em conta.

 

Sabe qual a consequência de todo este disparate moralista, Salvador? É  serem sempre os corpos dos mais pobres que são roubados, pois bem mais fácil é desenterrá-los. Covas menos fundas, caixões mais fracos, valas comuns... Os ricos até na morte se defendem. As mais das vezes protegem-se com caixões de metal ou acoitam-se em jazigos fortificados, isto quando não põe criados de guarda à sepultura até o corpo se tornar inútil para nós... Veja bem no que dá a moralzinha. Cria injustiça. Salva os ricos e trama os pobres, é o que é. Cambada de hipocrisia... Olhe, Salvador, sempre lhe digo que a melhor forma de gostarmos do nosso semelhante é evitá-lo." (pág.48)

 

NOTA: Por coincidência ou não, na semana em que estava a ler este livro, o Sérgio Luís de Carvalho deu uma nova entrevista ao Maluco Beleza, podcast do Rui Unas de que sou fã. Foi a segunda vez que ele lá foi e, digo-vos, ele é um dos melhores convidados que o podcast já viu. Duas horas a ouvi-lo passam a correr. Aconselho vivamente a que oiçam ambas as entrevistas, pois são de muito interesse (links no final do post).

 

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★★★★☆

4/5 - Muito Bom

 

Alguns links que podem ser úteis...

 

 

 Até breve! 😊

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Ter | 09.04.19

Perguntas & Respostas

Mar Pereira

It's been 84 years, eu sei. Mas finalmente venho responder a algumas questões que me fizeram há uns meses. Desde já, quero agradecer a toda a gente que enviou alguma, espero que não fiquem desiludidos com as respostas!

 

1) Se pudesses trocar uma das leituras obrigatórias do secundário qual seria? (e por qual trocarias).

Olhando para o programa de Português do secundário, que é aquele com que estou mais familiarizada de momento, penso que as listagens tanto de obras como de autores são bastante boas. A única obra que trocaria era Farsa de Inês Pereira, de Gil Vicente. Não gostei nada, nem um bocadinho, do livro, embora perceba o porquê de estar presente no programa. Se essa obra desaparecesse e surgisse mais tempo livre no 12ºano, acho que seria interessante estudar autores contemporâneos mais próximos de nós, como Valter Hugo Mãe, Mário de Carvalho (que é ligeiramente explorado, mas nada de extraordinário),...

Sim, acho que era isso mesmo: tirava a Farsa de Inês Pereira e acrescentava um novo autor contemporâneo, se fosse possível fazê-lo.


2) Que disciplina achas que está em falta no ensino português? E qual achas que deveria ser opcional?

Acho que falta uma disciplina que prepare efetivamente os jovens para o futuro. Quando acabam o 12º (ou têm 18 anos) maior parte das pessoas não sabe lidar com impostos, não tem educação financeira, não sabe como funcionam as eleições em Portugal. Felizmente estou num curso e tenho disciplinas que me preparam para esses tópicos, nomeadamente História e MACS (temos educação financeira na disciplina). Bem sei que são coisas que qualquer pessoa pode, autonomamente, pesquisar e procurar saber, mas acho que o papel da escola, mais do que preparar alunos para cuspir matéria em exames, deve ser educativo. Isto é educação e falha redondamente na maior parte dos cursos. 

Quanto a disciplinas opcionais, não consigo dar-te uma resposta porque acho que todas, todas mesmo, são importantes, quer no básico, quer no secundário. Se tudo o que aprendi tem utilidade agora? Não, utilidade não tem, mas é conhecimento e esse bicho nunca fez mal a ninguém. Por exemplo, eu, infelizmente, não atino com Filosofia, não sei se é o método de ensino utilizado ou outro fator qualquer, mas não atino com a disciplina e não gosto, não gosto nada mesmo. Mas reconheço-lhe a importância, aliás, a muita importância, que a disciplina tem. Todas as disciplinas têm os seus pontos fortes e fracos e não é por não gostarmos de uma que automaticamente ela deixa de ter importância. 

As disciplinas que temos no currículo ensinam-nos de tudo um pouco e isso é fundamental na educação e crescimento do ser humano, basta olhar para a educação dada no Renascimento.


3) Clássico estrangeiro preferido? 

Esta é difícil. Li tão poucos, ainda. Mas talvez apontasse para o Madame Bovary, já que me levou a reflexões bastante profundas. Podem ler a minha opinão aqui

NOTA: Terminei há poucos dias O Despertar (Kate Chopin) e penso que o lugar de "clássico estrangeiro preferido" poderá ser ocupado, temporariamente, por ele. Podem ler a minha breve opinião aqui

 

4) Autor que consideras overrated. 

Colleen Hoover. Mas MUITO overrated. Não percebo a hype, detestei tudo o que li dela até agora (desculpem, fãs!).

 

5) Quantos livros tens (lidos + não lidos)?

No dia de hoje, 7 de abril de 2019, tenho na estante 176 livros, dos quais 86 estão lidos, 72 estão por ler e os restantes são livros que tenho, porém não tenho um particular interesse em ler, mas quem sabe um dia.

 

6) Consegues ler mais que um livro ao mesmo tempo?

Sim, e acontece com frequência. Normalmente leio um em casa, em formato físico, e ando com um digital no telemóvel sempre atrás de mim para "tapar buracos" e ocupar tempos de espera.

 

7) Que livros recomendarias para um jovem passar a ter o bichinho da leitura?

Para um jovem (13-17), acho que recomendaria, inicialmente YA. Em qualquer variável, quer fantasia, quer contemporâneo. Os adolescentes têm um problema de incompreensão e incompatibilidade muito grande, isto é, nós achamos sempre que nunca ninguém nos percebe, nunca sentimos que alguém tem os mesmos problemas que nós (eu sei, somos autênticas drama queens), e a literatura YA permite que esses mesmos jovens se sentiam representados e digam "eu não sou o único".

Mas, excluindo o YA, e falando pessoalmente porque foram este tipo de livros que me incentivaram a ler mais e a procurar mais livros, acho que livros sobre livros podem funcionar muito bem. Por exemplo, o Vamos Comprar um Poeta, de Afonso Cruz, que é, já agora, um dos meus livros favoritos de sempre, ou A Rapariga que Roubava Livros. Harry Potter e Os Jogos da Fome também são sempre boas opções.

Acho que o fundamental é dar ao jovem um livro com o qual ele se identifique e que seja bom o suficiente para ele se esquecer que tem um telemóvel, uma televisão ou uma consola ali ao pé. É isso que faz nascer paixão e amor e a ligação das pessoas com os livros, essa ligação só acontece quando abraçamos e somos abraçados pelo livro. 

 

Quero agradecer, novamente, a toda a gente que enviou questões. Talvez daqui a uns meses repita a experiência.

 

Até breve! 😊

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