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literatura, cinema e afins

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Ter | 19.02.19

Lidar com o Insucesso

Mar Pereira

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Ninguém está preparado o suficiente para saber lidar e conviver com a presença do insucesso, seja ele escolar, profissional ou pessoal. Podemos ter uma ideia de como evitar a situação e de como a atenuar, mas ela continuará sempre a afetar-nos, mesmo que nos custe a encarar essa realidade. 

O insucesso é uma coisa que a mim que me causa muita comichão e que me irrita profundamente. Tornei-me, ao longo dos anos, uma perfecionista-nata, procurando sempre alcançar o melhor cenário possível e, por vezes, até a perfeição, apesar de ter a plena noção que esse é um conceito incansável para o comum dos mortais. A causa deste perfecionismo é só uma: escola. 

Nestes últimos dias, vi um vídeo muito interessante em que a interlocutora exprimiu exatamente aquilo que eu sinto a todas as horas, todos os dias, há anos.

 

O facto de me ter habituado a receber sempre classificações bastante satisfatórias nos testes fez com que estivesse sempre à espera de mais. Se, neste teste tive um 17,5, então no próximo espero tirar um 18 ou um 18,5. Essa pressão que colocava em cima de mim mesma fazia-me (e faz, ainda) trabalhar ainda mais para atingir esse objetivo: ia passar mais tempo à volta das matérias, ia fazer exercícios, ia espreitar as questões dos exames. No entanto, se, mesmo depois deste trabalho todo, obtivesse um resultado inferior (como um 16 ou um 17), encarava isso como uma falha pessoal. E, novamente, no teste seguinte, ia voltar a encharcar-me de trabalho na esperança de melhorar a nota e, mesmo que acabasse por melhorá-la, ia ficar sempre insatisfeita – podia sempre ter sido uma décima, duas décimas, três décimas acima. Chegámos ao ponto de eu ter um 198 (19,8 valores) e um 200 em testes e mesmo assim não me sentir satisfeita.

Se, no final do período, um professor me desse um voto de confiança e me atribuísse uma classificação de, imaginemos, 19, eu sentia-me na obrigação de corresponder a essa expectativa e ia, novamente, trabalhar muito para atingir esses resultados. Ficava com uma pressão em cima quase sufocante, porque, no fundo, estava ali uma pessoa que não queria dicecionar e eu queria mostrar que era digna da confiança que o professor tinha depositado em mim. Nisto, instalava-se uma pilha gigante de nervos em mim e lá ia eu fazer o teste – e quase que por magia nada do que tinha estudado desaparecia. Tudo o que passava na minha mente eram os pensamentos de alguém que não queria desiludir outra pessoa: "tens de te sair bem nisto", "pensa com mais clareza", "não te esqueças do voto de confiança". E estes nervos todos resultavam, como podem imaginar, em resultados horríveis (ou, vá, resultados que, quando comparados com 19, são níveis bem mais abaixo). 

Os nervos oriundos da pressão que eu colocava em mim mesma quiseram sempre ter uma fala na peça e decidiram complicar a minha vida. 

Mas nem só de mim a pressão era irradiada: os professores e os colegas também ajudavam muito nisso. 

Cada vez que respondia incorretamente a uma pergunta, cada vez que não sabia a data ou o nome X ou Y, cada vez que não percebia uma matéria, cada vez que tinha uma nota mais baixa, cada vez que alguém tinha uma nota mais alta que a minha: tudo isto entrava pelos meus ouvidos e ficava a remoer no meu cérebro. 

"Então, quanto tiveste?" 

"16"

"Ahahah, não posso, tive uma nota mais alta que ela!"

"Como é que não sabes o nome da teoria? É inadmissível uma aluna de 18 não me saber isto!" – isto acontecia frequentemente quando ninguém na turma sabia a resposta à pergunta. 

"Ui, tiveste 14? Isso é nota se que se admite? Ahahahah"

 

São, observadas de fora, situações simples, mas, para mim, eram um gatilho para pensamentos infinitos: talvez devesse trabalhar mais, se calhar 8 horas diárias não são o suficiente, era uma boa ideia fazer uma revisão à matéria pela enésima vez. 

Ia para os testes com um pensamento claro e pesado: não podes falhar. E a pensar isto falhava sempre. 

Desde o começo do secundário, já perdi a conta das vezes em que tive mental breakdowns por causa da escola e das notas. Coloco tudo em questão: talvez o meu trabalho não seja suficiente, talvez eu não esteja a fazer o suficiente, talvez me devesse empenhar mais, talvez devesse parar com o blog, abrandar nas leituras e nos filmes (que, diga-se já não são muito abundantes), talvez devesse tentar um novo método de tudo, talvez, talvez, talvez.

Chega de talvezes. Eu sei que trabalho muito para escola e sei que todas as notas que aparecem nas classificações ou na pauta, sejam elas boas ou más, são o fruto do meu trabalho. Sei que estou a dar o meu melhor e sei que mereço ser reconhecida por isso e esse reconhecimento não parte de outrem, mas de mim. Se algum teste/exame não correu bem, sim, devemos perceber o que falhou e tentar corrigir, mas chega de questionar se o meu trabalho é ou não suficiente ou é ou não válido. Eu, e só eu, tenho noção plena de toda a dedicação, esforço e empenho que coloco nisto. E falhar custa? Custa muito, porque dececiono os outros, dececiono-me a mim mesma e fico a navegar num mar de frustração que nunca mais acaba. 

Isto foi o que aconteceu até agora, no presente ano escolar, sobretudo neste segundo período: as minhas notas estão a descer radicalmente e sinto que estou a falhar com os professores e comigo mesma. 

Lidar com o insucesso é, novamente, uma coisa que me causa muita comichão e não sei, mesmo depois deste desabafo, abordar muito bem a questão. Só tenho uma certeza: pressure sucks (a pressão é uma porcaria).

 

Até breve! 😊

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